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Quando não se pode correr

Hoje é um dia especial.

Após um rompimento total de um ligamento do tornozelo, o mundo parece desabar.
Em um piscar de olhos, numa torção, parece que toda magia daquela montanha tornou-se em preto e branco. Sim, eu sei que ela ainda era de belezas imensuráveis mas naquele momento, apenas naquele, eu não conseguia vê-la desta forma. Tantas coisas passam na cabeça de um corredor quando se vê impedido do que ama.

A vida do atleta é treinar, e lhe privar este “direito” é lhe privar de alegria. Ele tem de se reconstruir para canalizar esta alegria em outras coisas na vida.
Tá bom, eu sei que você vai me chamar de obsessivo, compulsivo, mas, sinceramente, me sinto bem sendo assim.
Tenho prazer na obsessão e na busca constante por resultados, melhorias…
Tem gente que sente prazer em curtir o momento, o nirvana que a corrida atinge, e eu amo e respeito demais isto. Confesso que no fundo sinto até uma certa inveja mas… fazer o quê, coração é terra sem dono e ele age como quer.
Mas vocês lembram que comecei dizendo que hoje é um dia especial?
É minha primeira maratona.
Sim, sim, eu sei que já corri dezenas mas hoje, é minha primeira pós lesão. É como se fosse a primeira de novo, entende?
Como se fosse a primeira vez, me dei ao luxo até de esquecer itens básicos dela:

Esqueci de toda alimentação, suplementos, tênis que gosto para esta prova, cinto… Fui para o “faça seu melhor, com as condições que tem”

Mas eu disse que era um dia especial! 😃

A largada foi às 7:15 com um calor surreal já. No primeiro ponto de hidratação no KM 3 eu já estava pegando gelo para nuca, cabeça. O maçarico estava ligado em Votorantim.
Fui tocando com os ponteiros, mas sabia que a conta poderia vir. Mas quer saber? Eu não estava preocupado. Se sofresse, não me importaria, se não perfomasse, não me cobraria. Hoje não. Hoje é dia só de agradecer. De celebrar este presente lindo chamado saúde… chamado vida.

Lembrei agora que o nome da prova é “Maratona Saúde”.
A medida que a prova me jogava na estrada, caminhando para Piedade, me dei conta do que nós, corredores, somos. Sim, nós atravessamos cidades correndo. Somos realmente privilegiados.
A prova agora vai até Piedade e volta num trecho. Na volta, o ponto alto da prova: Alencar, um amigo, sentado no km 21 dele, falando que ia desistir (foi sua primeira maratona).

“- O que te falta? Tem perna, comida, água, disposição? Então levanta daí e marcha, soldado!”
Na hora ele ouviu e foi.

Às vezes precisamos disto. Eu poderia apoiar sua decisão. Em mim estava doendo também, mas eu sabia que ele não se sentiria bem por desistir.
Saí dali como dever cumprido e a prova seguiu.

Os últimos 10 Km foram um misto de cãibras, dores e gratidão. Aceitei aquele forte calor, entendendo que é o treinamento que eu precisava para UT da Amazônia em outubro.
Lembrava da frase no alto da “porteira do Céu” na BR135: “O caminho é bonito. Só é difícil”
Ao cruzar a linha de chegada, aquele sorriso e alegria indizível, que não cabia em mim.
No último Km passa um carro com uma frase: “Nas mãos de Deus”
Eu diria no colo. E tem lugar melhor para estar?

Eu sou de novo maratonista. Obrigado meu Deus. Obrigado, obrigado, obrigado…

Alencar e eu ao fim da prova

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Sergio Garcia

Sergio Garcia é Ultramaratonista, empresário e idealizador da Equilíbrio Esportes. Apaixonado por aventuras, já competiu nas principais provas no Brasil e fora dele, além de percorrer trilhas fantásticas. Nas horas vagas ele tenta "colocar suas aventuras no teclado", buscando convidar seus leitores a passear com ele e se sentirem capazes e motivados a sairem do sofá e viverem também estas aventuras.

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