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Por que somos montanhistas?

Por Bruno Negreiros

Entre muitas caminhadas, travessias, escaladas e outras atividades na montanha, tive a sorte de sempre conviver com muitas pessoas de g√™neros, idades, lugares e formas de viver a vida diferentes. Entre muitos bons papos ao redor do acampamento, olhando as estrelas (naquelas noites em que o frio n√£o nos expulsava para a barraca), um assunto sempre foi muito comum: ‚Äúpor que somos montanhistas?‚ÄĚ. Quantas boas respostas eu j√° recebi. Mas n√£o s√≥ isso, quantas outras √≥timas respostas eu mesmo j√° dei, sempre pensando em motivos novos, como se essa pergunta n√£o tivesse uma resposta exata‚Ķ Como se a evolu√ß√£o e a proximidade com tudo aquilo fosse sempre agregando fatores importantes dentro de um profundo processo de autodescobrimento, como se as montanhas, fossem pouco a pouco mostrando novas partes de mim.

Eu confesso que esse questionamento n√£o permanecia somente entre as in√ļmeras boas (ou ruins) √°reas de acampamento que j√° passei. Pelo contr√°rio: todo dia de manh√£, o guardava dentro de mim, bem como quem coloca algo na mochila para progredir na caminhada, carregando-o entre barracas, sacos de dormir, isolantes e anoraques, dando continuidade ao ciclo de reflex√£o a cada parada que a expans√£o dos meus limites humanos me permitia. Junto a todos esses equipamentos, este pensamento vinha para casa, retirado com carinho junto com o resto. Entre cuidados, manuten√ß√Ķes, descansos e vidas rotineiras, aquele sorriso r√°pido carregado de boas lembran√ßas, despertado como um forte vento gelado de inverno‚Ķ Afinal, por que eu sou assim?

Depois de alguns anos de experi√™ncia, apesar de ainda ser muito novo, consegui chegar a algumas respostas que meus olhos e mentes, t√£o cr√≠ticos, conseguiram juntar‚Ķ Depois de um bom tempo tomando coragem, resolvi escrever esse texto pensando o quanto ele pode ser inspirador e esclarecedor para muita gente. Claro, tamb√©m pode ser extremamente discordante do que muitas pessoas creem, o que √© totalmente v√°lido, j√° que √© exatamente na diferen√ßa de opini√Ķes que est√° a beleza da vida que vivemos ao ar livre, sempre debatendo e aprendendo com os outros nas paisagens mais ricas que podem ser vistas. Aqui, n√£o pretendo esgotar ou ‚Äúdefinir‚ÄĚ esse assunto, mas apenas introduzi-lo ao debate, baseado em minha percep√ß√£o sobre isso tudo que vivemos.

Assim, entendo que os principais motivos pelos quais qualquer pessoa se torna um praticante de atividades de montanhismo est√£o baseados em uma forte procura por algo maior. Mas n√£o entenda esse ‚Äúalgo maior‚ÄĚ apenas como alguma religiosidade ou uma filosofia barata de coach, mas sim algo maior no seu √Ęmbito pessoal, algo que √© realmente importante para ela‚Ķ algo que a motiva e traz felicidade, que a preenche de orgulho e supera√ß√£o. Esse algo maior pode ser um infinito de coisas muito peculiares e particulares, mas que hoje consigo enxergar em boas tr√™s formas de pensamento: o desejo por autodesenvolvimento, por estar em comunidade ou por uma conex√£o com a natureza‚Ķ reflex√Ķes que podemos melhor trabalhar a seguir.

O desejo por autodesenvolvimento

Quando se pensa em autodesenvolvimento, na hora, lembro dos amigos que come√ßaram no esporte buscando uma pr√°tica esportiva que contribu√≠sse para a sa√ļde e o bem-estar‚Ķ Muitos s√£o aqueles que buscam o montanhismo por um desejo de melhora em seu condicionamento f√≠sico aliada √† divers√£o que aquela atividade proporciona. Alguns se sentem altamente fatigados nas primeiras trilhas, mas logo percebem o qu√£o seus corpos conseguem vencer desafios antes inimagin√°veis. Tamb√©m existem os que migram de outros esportes, j√° bem preparados e em forma, mas que acabam por migrar por uma atividade que lhes proporciona diferentes perspectivas do mundo. O sentimento de novidade e de que infinitos desafios, que a montanha apresenta, empolga e apaixona.

Tamb√©m existe o claro desenvolvimento mental e psicol√≥gico. H√° um enorme ganho em autoestima, em autossufici√™ncia e na capacidade de lideran√ßa. Quem nunca chegou em casa depois daquela montanha muito dif√≠cil e pensou: ‚Äúcaramba, se eu consegui isso, eu consigo correr atr√°s dos meus objetivos‚ÄĚ? Muitos s√£o aqueles que entram no esporte ap√≥s um trauma severo na vida, como o fim de um relacionamento ou um processo depressivo. Ao passar do tempo, essas pessoas v√£o desenvolvendo suas pr√≥prias ferramentas de combate a isso tudo, muito movidos aos benef√≠cios e evolu√ß√Ķes proporcionadas pela atividade‚Ķ Ah, como isso √© comum! Ao avan√ßar no esporte, h√° uma grande expans√£o da zona de conforto, onde situa√ß√Ķes de aventuras antes pensadas como imposs√≠veis, se tornam agrad√°veis e prazerosas, movidas pelo desejo de supera√ß√£o dos limites. √ďbvio, isso quando realizado de forma saud√°vel e segura.

Existe tamb√©m uma evolu√ß√£o cognitiva clara, afinal, planejar aquele roteiro, montar a log√≠stica, observar a paisagem por onde se tem que caminhar e tomar decis√Ķes puxam essa evolu√ß√£o. Sabe aqueles aprendizados que, durante toda a sua vida, ficaram presos e enquadrados em paredes numa sala de aula? Na montanha o conhecimento √© livre, leve e necessita de aplica√ß√Ķes constantes, afinal, √© a pr√°tica que faz um bom montanhista.

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Por fim, existem aqueles que buscam apenas a divers√£o, simplicidade e a inoc√™ncia de uma felicidade em suas rotinas. Todos merecem curtir aquela trilha que aparece na janela do √īnibus. L√° em cima, tirar aquela foto irada e mostrar a todos, com orgulho do que foi feito e de como gosta de aproveitar a vida. Nem tudo precisa ser complexo e cheio de ‚Äúdesenvolvimento pessoal‚ÄĚ. Papo chato para maioria, n√©? Bom mesmo √© curtir aquela trilha muito maneira e, depois, tomar aquela cerveja ou aquele suco com os amigos‚Ķ E, quem sabe, depois mergulhar de vez na cultura do montanhismo. O ponto √© que, √†s vezes, a gente complica demais a vida e os nossos pensamentos. No fim de tudo, o que importa √© ser feliz.

A busca pelo autodesenvolvimento físico e mental me levou a participar de provas de trailrunning.

Estar em comunidade

Outro fator muito importante que faz com que as pessoas mergulhem de vez na pr√°tica de esportes de montanha est√° no desejo de pertencimento a algo maior, sejam aqueles amigos trilheiros do fim de semana, aquele grupo de Whatsapp bem divertido e cheio de figurinhas ou, at√© mesmo, algo visto como toda uma cultura, com suas hist√≥rias e lendas. Todos os que praticam essas atividades lembram como muita alegria dos momentos que passaram com tantas outras pessoas legais e interessantes nas montanhas em que estiveram. Lembram com carinho daqueles bons papos no acampamento (como eu mesmo me lembrei no come√ßo desse texto), dos momentos de descontra√ß√£o enquanto estavam em uma trilha ou daquela supera√ß√£o dif√≠cil que tiveram juntos em uma a travessia muito dif√≠cil. O forte desejo do ser humano em estar em comunidade e de ter relev√Ęncia √© um dos fortes motivos que nos levam √†s montanhas.

Esse desejo de estar em comunidade, claro, traz consigo tamb√©m o desenvolvimento de capacidades socioemocionais. Melhoram a sua capacidade de comunica√ß√£o e de colabora√ß√£o. O montanhista, ou qualquer outro nome que lhe possa ser atribu√≠do, passa a entender que a coopera√ß√£o √© um dos aspectos mais importantes no esporte. ‚ÄúN√≥s viemos at√© aqui juntos e vamos terminar juntos‚ÄĚ. Al√©m disso, √© enorme a bagagem cultural e humana que se traz para casa depois de cada expedi√ß√£o em um lugar novo, em conv√≠vio com a comunidade local‚Ķ Para aqueles que entendem a ess√™ncia do montanhismo, ficam os ricos aprendizados e os amigos que fazem pelo caminho, muitos daqueles impens√°veis no fluxo normal da vida. Como voc√™ seria amigo daquela pessoa com profiss√£o t√£o diferente e de t√£o longe? Ah, a montanha une boas energias!

Deste processo, saem seres humanos melhores, mais altruístas e responsáveis, que aprendem a viver melhor com os outros e com as diferenças, não só nas montanhas e travessias que fazem parte, mas também em sua vida cotidiana, entre diversos outros amigos e familiares.

Como é bom estar com os amigos na montanha. Foto: Clube Outdoor.

A conex√£o com a natureza

Existem aqueles ainda que s√£o motivados por uma maior conex√£o com o ambiente natural. As belas paisagens compostas por montanhas, florestas, lagos e, at√© mesmo praias, s√£o t√£o apaixonantes que cativam aos que querem estar mais pr√≥ximos delas, sobretudo dentro de um contexto de civiliza√ß√£o t√£o urbana que vivemos hoje em dia. Estes querem, apenas, estar ali, em uma maior conex√£o e presen√ßa da natureza, aproveitando cada sensa√ß√£o que lhe √© proporcionada, observando a vegeta√ß√£o, os animais e as forma√ß√Ķes rochosas existentes. Quem nunca viu uma paisagem nova e pensou: ‚Äúcomo √© poss√≠vel isso existir?‚ÄĚ. Cresce a vontade se se expandir a vis√£o para o infinito de onde os olhos podem ver. Afinal, n√≥s fazemos parte da natureza e √© total inoc√™ncia de qualquer um pensar o contr√°rio.

Claro, preciso mencionar aqueles que, sim, possuem uma formação ou uma enorme curiosidade em aprender sobre alguma das ciências da natureza. Estes procuram estar tão próximos daquilo, não só em aventuras, mas em estudos e aprendizados. São os que querem viver aquilo intensamente, aprendendo e observando na prática, tudo aquilo que escolheram para suas vidas como profissão ou de estudos curiosos. Eu sou um exemplo disso, como Engenheiro Ambiental, motivado exatamente por isso tudo quando ainda adolescente, posso dizer que estou sempre estudando e aprendendo a cada caminhada por aí.

Para certas pessoas, n√£o h√° a necessidade de buscar uma maior conex√£o, pois eles j√° o tem, desde certo momentos de suas vidas. Para estes, a montanha √© muito mais do que uma viagem, ou um desafio, eles a vivem e a veneram, seja por uma enorme afei√ß√£o local para com aquele ambiente ou, at√© mesmo, por quest√Ķes espirituais. Comunidades e povos locais s√£o o que de mais belo tem nessa rela√ß√£o, j√° que esses s√£o seus verdadeiros protetores, filhos daquelas montanhas.

A conexão com a natureza na Travessia Marins x Itaguaré. Foto: Filipe Brito.

V√° para as montanhas

Independente de sua origem, credo, raça, gênero ou qualquer coisa que lhe defina, vá para as montanhas. Eu posso lhe garantir o quão belo e engrandecedor é, quando feito com harmonia e consciência. Seja qual for os seus motivos, se procura por si, por amigos ou pela natureza, só vai! Melhor ainda: se você procura por tudo isso em um só lugar, é aqui que você vai encontrar e tenho certeza do quanto isso vai te transformar.

Aos que leram esse texto, deixo minhas sinceras reflex√Ķes e espero, honestamente, poder inspirar muitas outras novas. Aos que gostam de uma boa conversa, assim como eu, concordam, discordam ou querem acrescentar muito mais a este assunto, lhes pergunto:¬†por que voc√™s s√£o montanhistas?

 

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