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Paisagens Surreais Na Altitude Do Paso De San Francisco

Por Henrique Fonseca e Sabrina Chinelato

Na primeira etapa da nossa volta ao mundo de carro, cruzamos por destinos fantásticos entre os extremos das Américas. Entre as diversas paisagens as quais nos deparamos no continente americano, o Paso de San Francisco nos apresentou os cenários mais surpreendentes em sua altitude.

Sa√≠mos de Copiap√≥ sem saber o que nos esperava. Um amigo brasileiro, famoso montanhista e detentor de in√ļmeras proezas em alta montanha, nos havia recomendado um caminho entre o Chile e a Argentina.

N√£o conhec√≠amos nada sobre esta regi√£o, nem por fotos, e fomos desbrav√°-la sem muitas expectativas. Mal sab√≠amos que est√°vamos a poucos quil√īmetros de um dos trechos mais √©picos de todo o altiplano andino.

Paso de San Francisco

O Paso de San Francisco interliga Copiapó à cidade argentina de Fiambalá, com trechos de até 4.726 metros acima do nível do mar. Nesta travessia, pudemos experimentar os dois lados da altitude, de seus cenários surpreendentes à sua força devastadora sobre nossos corpos.

Enchemos bem o tanque e o gal√£o de combust√≠vel, j√° que nos mais de 450 quil√īmetros cordilheira adentro n√£o existem postos de gasolina. Partimos.

Logo, o cen√°rio mudou completamente. As casas sumiram, a completa aridez tomou conta da paisagem. Ent√£o as montanhas da Cordilheira dos Andes ergueram-se √† nossa frente. Num instante, ascendemos a uma altitude de tr√™s mil e quinhentos metros, percorrendo desfiladeiros empoeirados e fumegantes de dois qui√īmetros l√° embaixo.

Viajamos bem devagar, contemplando a paisagem em uma subida ininterrupta. Começamos, aos poucos, sentir o ar rarefeito. Um cansaço exagerado surgia após uma pequena caminhada ou um movimento mais brusco.

Tanto quanto n√≥s, o Mochileiro, nossa Land Rover Defender 110, estranhou os efeitos da altitude. Sentimos um cheiro forte de fuma√ßa e paramos para verificar. Levantamos o cap√ī do carro e sa√≠a muita fuma√ßa, ao mesmo tempo em que motor estava extremamente quente.

Ficamos um bom tempo esperando o motor esfriar para verificarmos a água. Após trinta minutos parados na estrada, sem cruzar uma alma viva, apareceu um simpático caminhoneiro e nos ofereceu ajuda. Ele levava muita água e nos auxiliou a conferir se estava tudo intacto.

Descobrimos que havia sido somente um susto. O Mochileiro estava bem e tinha queimado apenas um excesso de óleo que havia vazado. De qualquer forma, no restante do trajeto, parávamos a cada trinta minutos para deixá-lo esfriar um pouco e conferir a água. Certamente, ali não era um bom lugar para termos um problemas mais sérios, já que a altitude e a falta de suporte poderiam nos deixar ilhados por várias horas ou até mesmo dias.

Ainda precisávamos cruzar a fronteira para a Argentina neste dia. Por isso, tratamos de apertar um pouco o passo para chegarmos antes do controle migratório fechar as portas.

Conseguimos chegar antes das seis da tarde, mas já não era mais possível passar. Nos restava dormir por ali mesmo, a quatro mil metros de altitude, e aguardar pela reabertura da fronteira na manhã seguinte.

Esta foi uma daquelas noites que nunca mais esqueceremos em nossas vidas. Acampados ao lado da fronteira, um frio de estalar e muita falta de ar. Abríamos a janela para respirar melhor e não conseguíamos aguentar o frio. Fechávamos a janela para segurar o frio e sentíamos uma falta de ar incrível. Que noite! Talvez a mais emocionante da viagem até então, aquela que não víamos a hora de terminar.

No dia seguinte, ficamos muito felizes por não termos seguido viagem antes. Quantas maravilhas naturais estavam escondidas em um pequeno trecho e, provavelmente, passaríamos batidos no escuro.

Laguna Verde

Ainda no lado chileno, a poucos quil√īmetros da demarca√ß√£o fronteiri√ßa, encontra-se, se n√£o a mais bonita, uma das mais desconcertantes lagunas altipl√Ęnicas de toda a Cordilheira dos Andes, a Laguna Verde.

Uma verdadeira miragem em meio à uma paisagem tão desértica. Além de sua beleza, o que mais nos impressionou foi a sua solidão. Uma laguna tão magnífica e nenhum turista. Estávamos a sós em meio àquela imensidão de água salgada, a mais de quatro mil e trezentos metros de altitude, rodeados por uma das paisagens mais surreais da América do Sul.

A pouqu√≠ssimos quil√īmetros da Argentina tivemos uma outra incr√≠vel surpresa. Passamos ao lado do maior vulc√£o do mundo e segunda maior montanha da Am√©rica do Sul, o Ojos del Salado, com seus imponentes 6.893 metros. J√° hav√≠amos lido in√ļmeras hist√≥rias desta m√≠stica montanha andina e conhec√™-la de frente foi a realiza√ß√£o de um grande sonho. Considerada uma montanha de ascenso muito arriscado, o Ojos del Salado, desde que foi escalado pela primeira vez, em 1937, j√° levou mais de trezentas vidas de montanhistas.

Cruzamos para a Argentina e a paisagem mudou completamente. Engraçado como a natureza compreendeu os limites fronteiriços e decidiu criar cenários distintos de um lado e do outro.

No lado Argentino do Paso de San Francisco predominam as Punas, a vegeta√ß√£o rasteira caracter√≠stica dos altiplanos andinos. √Č t√£o linda que mais se parece um tapete amarelo, revestindo as montanhas.

Ao passo que do lado chileno somente subimos, do lado argentino as descidas eram intermináveis, até alcançarmos a cidade de Fiambalá, para enfim respirarmos novamente.

O Paso de San Francisco foi uma das mais incríveis aventuras que vivemos entre os extremos da Cordilheira dos Andes. Seguimos viagem pela Argentina e ainda voltaríamos ao Chile mais uma vez, cruzando novamente as montanhas e os altiplanos andinos.

Mais histórias da nossa jornada pelo mundo podem ser acompanhadas também em nosso site www.terraadentro.com.

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