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Hidratação na corrida e hiponatremia induzida por exercício

Tanto para corredores iniciantes como experientes encontrar o equilíbrio na ingestão de água é um desafio. E, ao contrário do que muitos ditos populares ou marketing de empresas sugerem, hidratar-se excessivamente ou ingerir um número específico de litros de água por dia é longe de ser o ideal.

Todos nós já ouvimos as expressões “você precisa ingerir ao menos 3 litros de água por dia” ou “quando sentir sede você está desidratado”, entre diversas outras recomendações com base em uma coloração específica da urina ou quantidade de suor e sais perdidos pela transpiração. Contudo, estudos realizados em maratonas e ultramaratonas demonstram que essas recomendações não possuem fundamento e podem acabar influenciando corredores (tanto amadores quanto experientes) a ingerirem mais líquidos do que o necessário e acabarem tendo problemas sérios, especialmente em ambientes muito quentes.

Decidir quanta água deve-se ingerir, especialmente quando realizando uma atividade física, é uma arte, e cada indivíduo deve fazer experiências e encontrar o seu ponto de equilíbrio. O principal problema e mais preocupante que pode ocorrer durante ou até 24h após a atividade física é a hiponatremia induzida por exercício. Embora o termo refira-se a baixo nível de sódio no sangue, que é o que ocorre de fato, o desequilíbrio e problemas resultantes ocorrem devido à ingestão excessiva de líquidos, que leva a uma baixa concentração de sódio no sangue. Ao contrário do que se pensa, a ingestão de pastilhas de sódio não irá evitar a hiponatremia induzida por exercício e poderá até contribuir para o problema uma vez que estimula a ingestão de mais líquidos.

O desequilíbrio de sódio causa um redistribuição de fluidos pelo organismo e causa tontura, náusea, dor de cabeça em estágios mais leves e pode levar a convulsões, confusão/alteração mental e perda de consciência, coma e morte em casos mais severos. O diagnóstico da hiponatremia induzida por exercício é desafiador sem um aparelho para medir a concentração de sódio no sangue uma vez que os sintomas iniciais são genéricos e muito parecidos com sintomas de desidratação. Em campo, devemos observar sintomas, especialmente alterações neurológicas (tontura, dor de cabeça, confusão/alteração mental, convulsões) e tentar obter o histórico de ingestão de líquidos do paciente (seja água ou soluções eletrolíticas). Também é importante ressaltar que mesmo em grandes maratonas e ultramaratonas uma grande parte dos corredores (mais da metade em ultras) terminam a corrida com hiponatremia, mas são assintomáticos.

Qual o tratamento? Em campo, e com sintomas leves, o ideal é restringir a ingestão de mais líquidos. Caso disponível, administre 1/2 colher de sopa de sal em 100ml de água para tentar minimizar os efeitos do problema e amenizar os sintomas. Em todos os casos busque o atendimento médico e indique a suspeita de hiponatremia induzida por exercício.

Como decidir qual a quantidade ideal de líquidos a serem ingeridos? Resumo abaixo as recomendações dos especialistas:

– Beba água para saciar a sede!
– A perda de peso é esperada em maratonas e especialmente ultramaratonas. É aceitável e esperado que corredores percam cerca de 3% de peso corporal. Se você não está perdendo peso, provavelmente está se hidratando em excesso.
– Em a cor da urina (a não ser que seja excessivamente escura) não é um bom indicador de hidratação adequada, especialmente em ultramaratonas. Em alguns casos corredores podem parar de urinar apesar a ingestão excessiva de líquidos.
– Evite o uso de pastilhas de sódio.

Lembre-se que apesar do dito popular, beber água para saciar a sua sede é a melhor medida, além de evitar a ingestão de água excessiva antes, durante e após as corridas, sejam de curta ou longa duração. Faça experiências, sinta o seu organismo e evite fórmulas prontas, encontre a sua.

Bons treinos!

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Samanta Chu

Representante no Brasil e instrutora da Wilderness Medical Associates International (WMAI Brasil), ministra cursos no Brasil e no exterior desde 2011. Possui formação de Técnico de Emergências Médicas para Áreas Remotas (WEMT – EUA), é membro benfeitor do Grupo de Resgate em Montanha (Joinville, SC) e guia profissional conduzindo grupos em atividades outdoor diversas desde 2007.

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