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Comrades 90Km em solo africano

Da última vez falamos sobre as montanhas gélidas da Patagônia. Desta vamos viajar um pouco para o outro extremo do pacífico, em Durban, na África do Sul.

Foram anos de sonhos e treinamento para Ela. Cada prova, cada corridinha, despretensiosa ou não, o foco era ELA! 

O ano é 2019 e lá estava, em solo Africano. O berço da humanidade. O lugar onde um dia disseram à David Livingstone que era impossível fazerem estradas. 

Agora não somente existem mas mais de 20 mil corredores passariam por elas, por quase 90 kilometros. 

Começa todo o rito de largada: Hino da África, depois a famosa “Shosholoza”, música que os escravos cantavam em terras longínquas, sonhando com a liberdade e retorno para suas terras. Muitos morreram com esta esperança mas agora… podem cantar. Shosholoza. Cantem à plenos pulmões pois vocês são livres! O sangue dos seus ancestrais e muitas batalhas lhes deram este direito, que um dia alguém quis privar.

E eles sabem que são! Ahh, como sabem! E como cantam isto com a alma. Cantam ao ponto de nós, que não sofremos isto, sentirmos a dor, a empatia, a liberdade, e chorarmos juntos, antes da largada. 

Mas… Estava no hora de enfrentar a “Rainha das Ultras”. Comrades, a mais antiga e quase centenária ultramaratona e maior em quantidade também, o que faz jus ao seu título. 

Galo cantou. O tiro foi dado. 5:30 AM. Começou! 

Hora de tentar colocar em prática o que foi treinado e viver tudo isto, pelo vale das mil montanhas.

Emoção a flor da pele, pelas ruas de Durban, rumo a rodovia inicial. Nas ruas, em plena madrugada, milhares de pessoas aplaudiam e faziam isto com tanta intensidade, ao ponto de colocar mais “combustível” nas pernas. Impressionante!

Os primeiros kms foram tensos. Sem relógio, pois ele resolveu “bugar” na semana da prova, o ritmo era ditado pelas batidas do coração, o compasso das passadas. 

     “- Ritmo tranquilo, Sergio. Vamos lá, como nos primeiros dias de corrida”. 

As placas de kms passando e aquela olhada rápida no celular para fazer um cálculo de como estava de velocidade e um registro das primeiras impressões por áudio. 

Até aqui, perfeito! 

Dia claro e a cidade já havia ficado para trás. Duas horas de prova e a multidão não se desvencilhou. Grupos de corredores, na mesma passada se formavam por todos os cantos da estrada. 

     “Emocionante a corrida por aqui; lugar por onde passaram tantas lendas e de onde surgem tantos talentos.”

     “Talvez em nosso meio esteja algum que já deteve o recorde mundial. Talvez outro que sonhou com ele, tinha capacidade mas algo deu errado…”

 Sonhos realizados e sonhos frustrados. A vida é assim. “O que ela pede da gente é coragem”, dizia Guimarães Rosa, com muita propriedade.  

Dores no estômago e cólicas me fizeram lembrar que nem tudo são “flores” numa Ultramaratona. Após os 45 kms de prova, já com quase 4 horas, veio a ânsia, e nada mais entrava no estômago. 

 Cinco horas de esforço físico e uma sem comer nada, acabaram com minha energia. Com quase 60 kms percorridos, eu literalmente cambaleava pelas ruas, tentando manter os olhos abertos, quando chegou o Márcio Barbosa: 

     – Tudo bem, Sergio?

     – Nada bem meu amigo. Não consigo comer nada, e o sonho da medalha de prata está escapando das minhas mãos. 

     – Vou contigo então.

     – Negativo. Você vai atrás da sua.

     – Sergio…. É “só” uma medalha. Meu amigo não está bem. Vou com você!

Ah, as surpresas da África e as lições da corrida. Não à toa ela ostenta este título (Camaradas). Ela, em mais uma história, fazia jus ao seu nome e sua essência, e eu aprendia aquilo da maneira mais nobre que poderia se apresentar.

O ânimo foi voltando. A mente estava forte mas o corpo não respondia. 

Alguns kms a frente, recebo umas bolachinhas caseiras que uma senhora distribuía carinhosamente aos atletas. Não fazia parte da prova. Ela mesmo havia feito, acredito com muito carinho para ver nosso sorriso voltar depois de enfrentar as piores subidas da prova. Já haviam passado o “Vale das Mil Colinas” e agora era administrar o restante do caminho. Aos poucos fui retornando, mas as pernas sentiam muito o esforço e falta de nutrientes para suprir isto. 

 O Márcio, com paciência, suportou meus quase 30 kms, intercalados entre caminhada e corrida. 

É…Nesta estreia a medalha de prata não viria. Havia conquistado algo muito mais ímpar que isto. O grande valor de uma amizade. Amizade que se apresenta de forma mais intensa no momento de sofrimento, de frustração e não de alegrias, como é o rotineiro mas nem sempre o mais sincero. 

Entrando no pórtico de chegada, uma bandeira verde e amarela “brota” de seu bolso. – Vamos Sergio, segura na outra ponta pois entraremos com ela esticada, à 4 mãos. 

Comrades, sua linda, como não lhe amar. Mais de 8 horas das misturas dos mais incríveis sentimentos por suas estradas, colinas, belezas, histórias…

Tamanha experiência, da dor à resiliência, do ponto onde parecia não existir mais nada em mim, ao de ressuscitar e sentir-me mais vivo que nunca só me dá uma certeza: Me espere pois eu voltarei.

No próximo post falarei sobre a transição da corrida de asfalto para o Trail Running. Espero passar um pouco desta experiência para você, querido leitor.

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Sergio Garcia

Sergio Garcia

Sergio Garcia é Ultramaratonista, empresário e idealizador da Equilíbrio Esportes. Apaixonado por aventuras, já competiu nas principais provas no Brasil e fora dele, além de percorrer trilhas fantásticas. Nas horas vagas ele tenta "colocar suas aventuras no teclado", buscando convidar seus leitores a passear com ele e se sentirem capazes e motivados a sairem do sofá e viverem também estas aventuras.

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