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BR135 – A grande jornada

H√° caminhos que precisamos percorrer para nos encontrarmos…

Em 2019 tive a honra de ser apoio de dois grandes atletas para esta grande jornada chamada BR 135 Milhas.

Preste aten√ß√£o nestes n√ļmeros: – 217 km, por trilhas e montanhas, 13.500 mts de altimetria. Imagine-se subindo o Everest por duas vezes e indo a p√© de S√£o Paulo √† Divisa do Rio de Janeiro.¬† Voc√™ ter√° ideia da grandeza do desafio.

Sim, para os que n√£o s√£o deste “nosso mundo”, nem imaginam que isto seja poss√≠vel para uma pessoa.

√Č um desafio digno de um “Super Humanos” programa apresentado no canal @discovery.

Fiquei maravilhado em ver a grandeza de tudo aquilo, do prazer em terminar tamanho desafio e dizer: Sim, é possível. Mas será que é? Será que eu teria forças, paciência, persistência pra treinar para tamanha odisseia?

Bem, fato é que não pensava em encarar uma jornada destas tão cedo, mas a pandemia que mudou o mundo, também mudou algo dentro de mim. Comecei a sentir um senso de urgência, não sei se justificável e sadio ou não, mas fato é que sentia uma necessidade urgente e extrema em fazer aqueles planos que estavam para daqui uma década e que, dei por mim, quem garante que aconteceria e, menos ainda, quem pode dizer que não seria melhor agora, já?

Quando você treina sua mente, em conjunto com seu corpo, a máquina humana é capaz de coisas incríveis.

Foram treinos intensos, trabalho de longas horas durante os finais de semana… Havia dias de come√ßar antes do sol nascer e chegar em casa a tardezinha de um s√°bado ou um domingo… Outros de sair ao sol do meio-dia e retornar com ele j√° baixo, me “encarando”, como se dissesse: “E a√≠, aguenta?” e eu j√° mole e com dores causadas n√£o s√≥ pelo treino, mas pela desidrata√ß√£o, cheio de marra respondia: “Pode vir. Bate mais.”

Muita gente pensa que a prepara√ß√£o √© “s√≥” correr, mas h√° muitas outras partes do processo envolvidas.

Ao contrário do protocolo, treinava retirando a alimentação, para entender onde estava a falta.

Havia dias de terminar o treino com a urina negra ou com sangue, sintomas de desidratação severa. Tudo isto foi necessário para entender onde eu precisava atuar. Ajustar isto seria mais fácil num treino do que durante a prova.

Assisti muitos, mas muuitos filmes, como toda s√©rie de “Rock Balboa”, “At√© o √öltimo Homem”, “David Goggins”… isto me ajudaria na parte de treinamento mental, quando ela perguntasse ‚ÄúO que estamos fazendo aqui‚ÄĚ?

O sono nunca foi problema pra mim. Desde cedo precisei varar madrugadas adentro no trabalho. Quando h√° necessidade eu me transformo e neutralizo o sono por muito tempo. √Č algo maluco, como um instinto de sobreviv√™ncia, como se virasse bicho.

O hor√°rio de largada era flex√≠vel, entre 10 √†s 16, resolvi largar no √ļltimo hor√°rio.

A BR estava começando de fato

PARTE 2: 

Passei a parte 1 com 13 km, entrei na trilha do “Deus me Livre”, sempre mentalizando a for√ßa necess√°ria neste percurso e dosando. Passava pelos atletas que haviam sa√≠do antes e todos espantados com o ritmo mas…era isso. Estava treinado e sabia como fazer aquilo. Estava muito bem preparado para os primeiros 100 km que esperava passar por eles sem nenhuma surpresa.

Cheguei ao final da trilha com 33 km acumulados e bem na hora dos √ļltimos raios de luz (Perfeito, odeio lanterna de cabe√ßa).

Minha equipe me esperava com colete refletivo, lanternas, roupas secas e… Um pastel.¬†ūüėčūüėč

Diversão garantida até a Subida do Pico do Gavião. Dois carros de quartetos me alegravam com o rock and roll e a diversão de eles trocarem a cada 15 min de corredor. Entendi que não deveria acompanhar o ritmo deles. Eles estavam em 4 para se revezarem e eu estava só!

A garoa fina não dava trégua, mas eu já percebi que estava com sorte quando fiquei sabendo que logo após eu sair da entrada da primeira trilha, desabou um temporal por lá.

Subidas sem fim ditam o ritmo desta primeira parte. √Č o primeiro teste para saber se voc√™ realmente est√° preparado. Se voc√™ n√£o tiver paci√™ncia e se exceder nelas, prov√°vel que n√£o veja as √ļltimas montanhas da prova.

Chegamos a Andradas, 66 km de prova e a chuva apertava. Hora de encarar a “Serra do Lima”. Subida forte, desafiadora e muito longa. Quil√īmetros e quil√īmetros que te enfadam e sugam sua energia mental.

Neste ponto as coisas come√ßaram a se complicar. O carro n√£o subia e come√ßou a atolar. For√ßa pra l√°, pra c√°… Tent√°vamos de todas as maneiras e n√£o sa√≠a dali. Se n√£o resolv√™ssemos o problema naquele ponto, a prova havia acabado para mim. Era muito cedo para este tipo de imprevisto.

Quase uma hora perdida em dois atolamentos e com a ajuda de amigos (A BR é uma família) seguimos, confiantes e animados.

Chegamos ao KM 80, onde h√° o famoso macarr√£o da Dona Natalina. Diz a hist√≥ria que: ‚Äúse voc√™ souber corresponder ao seu sorriso simp√°tico e apreciar seu macarr√£o, ter√° energia dobrada no resto do percurso.”

Até ali eu não sabia se era verdade, mas estava com 9 horas de prova e precisava muito de um macarrão e um bom banho.

PARTE 3 

** KM 80, Dona Natalina **

Foram 1:20 não gastos, mas ganhos, neste lugar mágico. Histórias, resenha, umas mentiras (corredor é igual pescador), um bom banho e um macarrão alho e óleo de fazer gosto em muito restaurante de grife por aí.

Roupa limpa, perfume passado e bora partir para o que vinha pela frente.

Saímos debaixo de uma chuva insistente e muuuito barro.

2 km a frente, agradeci imensamente por aquela parada:

Meu carro de apoio teve de fazer um desvio pois não descia para Barra, que era a próxima cidade.

Peguei uma pequena garrafa para hidratação e meu corta-vento e desci. Afinal, nos encontraríamos logo a frente e eu havia acabado de comer e muito bem.

Erro chulo. Cheguei ao final da descida e… “Cad√™ o carro?”

Falei com uma equipe que estava esperando seu atleta, pedi um copo d’√°gua para n√£o me utilizar de minha √ļnica fonte de hidrata√ß√£o e pedi que os avisassem caso chegassem por l√°.

Sai, resoluto, rumo ao temido Morro do Sabão (já imaginam, né?).

Uma subida insana que quase me fez perder o rumo e me fez dar uns bons tapas na cara e lembrar que era aquilo que eu realmente queria.

Desci confiante, já com quase nada de luz na lanterna, economizando ao máximo o que podia de energia, rumo a cidade de Crisólia.

Caso n√£o os encontrasse por l√°, o plano j√° estava tra√ßado. Conseguir me hidratar, conseguir algo para comer com algum carro de apoio e partir para o pr√≥ximo ponto, at√© que me encontrassem. A esta altura j√° n√£o sabia se estavam perdidos, atolados… Alegria sem fim quando cheguei ao asfalto e no meio a tantos carros, reconhe√ßo a imagem do nosso e os gritos de minha equipe.

Uma prece “Obrigado Deus.” e confian√ßa que retoma imediatamente. Os 8 km que faltavam at√© atingir a marca dos 100 K foram “f√°ceis”. Flu√≠ram…

Ao atingir 100 km, um belo arco-íris se desenhou no céu, misturado aos primeiros raios da manhã, mostrando que realmente tudo aquilo valia a pena.

Os primeiros raios da manh√£ tamb√©m trouxeram consigo dores e cansa√ßo. “Hora de comer”, pensei.

Chegamos a Ouro Fino e j√° “cacei” uma padaria no caminho.

P√£o de queijo (afinal, estamos em Minas), caf√©zim, p√£o na chapa… Mas mesmo assim, ao sair de l√° o cansa√ßo teimava em ficar.

Achei um banco na praça central da cidade, com uma belíssima vista e uma árvore de Maritacas que foi a sinfonia mais doce que já ouvi. Ficar ali por 20 min me trouxe paz e, mesmo sem dormir, me vi renovado.

Saí em disparada para recuperar o tempo perdido.

As cidades foram ficando para traz, Ouro Fino, Inconfidentes…Chegamos em Borda da Mata √†s 11:30 completos 135 quil√īmetros e um sorriso que j√° n√£o cabia em mim.

Acreditem, eu j√° estava com fome, e conhecia o lugar perfeito para um belo almo√ßo…

PARTE 4 

“Esta prova come√ßa em Borda da Mata. Voc√™ j√° est√° cansado e s√£o duas maratonas duras.” As palavras do grande e experiente @raphaelbonatto no caf√© da manh√£ no dia anterior ecoavam na minha cabe√ßa.

Eu estava bem mas os pés já estavam surrados. Precisava ter cautela.

Logo vieram as subidas insanas. Estava em marcha para a Porteira do C√©u. O nome nestas circunst√Ęncias n√£o √© bom e pela primeira vez resolvi fazer uso dos bast√Ķes. A marcha foi constante e cheguei at√© l√° com a sensa√ß√£o de vit√≥ria. Recuperei o ar, hidrata√ß√£o generosa, e comecei a descer aquelas montanhas com uma for√ßa que n√£o entendia como ainda estava ali. Toda hora minha equipe parava ao lado e dizia: “beba √°gua”¬† e eu: “somente ao fim da descida”. Eu n√£o queria parar. Estava com fome… de KM.

Chegamos a Tocos do Mogi e logo avistei um A√ßa√≠ e, l√≥gico, que pedi. Aprendi com meus amigos cariocas no passado ‚Äú- Barriga cheia, cora√ß√£o feliz.‚Ä̬† Sa√≠ dali ap√≥s uns 15 min e comecei as subidas para fechar a 4¬į Maratona, em Estiva.

Ao chegar ao √ļltimo PC, o cheiro de janta em um restaurante me convidou e quando sentei, senti meu corpo muito quente, com muita febre. N√£o sabia at√© ent√£o o motivo mas era o sol de todo o dia, cobrando sua conta. Tomei um antit√©rmico e recebemos a not√≠cia que o carro de apoio n√£o poderia seguir no caminho.

Acho que esta foi a √ļnica hora que minha mente vacilou e quis que acabasse logo tudo isso. N√£o falei para eles por vergonha mas minha vontade era ZERO de correr. Pedi que fossem comigo ao menos os primeiros km para que eu n√£o ficasse tanto tempo sozinho.

Assim foi e reduzi esta conta para 16 km sem ninguém. Nesta hora não achávamos mais pilhas, uma bagunça no carro e fui com pouca iluminação pela trilha.

Foi a parte mais dura pois o barro cobria os pés, dificultando ainda mais o trajeto. A Serra do Caçador castigou pelo barro e altimetria e a escuridão era intensa e o silêncio ensurdecedor.

Percebi que havia cometido o maior erro da prova: N√£o ter colocado um t√™nis com grip e nem os bast√Ķes. Isso me deu raiva. N√£o podia cometer estes erros nestas horas. Isto podia ser fatal.

Na descida final eu gastava mais tempo que nas subidas. O barro estava nos tornozelos e era impossível ficar em pé. O cheiro não era mais de lama e sim de chiqueiro. Nem queria saber no que estava pisando. Que bom que estava escuro.

PARTE FINAL

No momento em que chegava a cidade o meu carro de apoio emparelhou comigo, trazendo de volta a alegria.

Chegamos a praça central de Consolação e fui trocar de tênis e cuidar dos pés.

O corpo esfriou e pela primeira vez, dormi. Foram uns 20 min, mas para mim, horas.

Acordei renovado. J√° sonhei com a chegada. Eu havia acordado ou estava vivendo um sonho?.

Até agora ainda não sei.

S√≥ sei que ia chegar em Parais√≥polis… Tinha uma meta e ela nunca esteve t√£o perto.

Os √ļltimos 22 km foram os mais demorados, mas tamb√©m os mais agrad√°veis das √ļltimas horas. O @junior_diesel abandonou o carro e fez um esfor√ßo absurdo para me acompanhar neste √ļltimo trecho e eu n√£o tinha o direito de reclamar de minhas dores. Eu estava ali por um sonho, ele estava vivendo o meu.

Quase não houve corrida neste trecho. O corpo já estava frio e eu não tinha vontade alguma de esquentá-lo, pois correr também significava enfrentar a dor e eu já não queria.

Mas eu sabia e me lembrava bem da √ļltima subida. Sabia como ela era e para que lado ela virava, lembrava de cada detalhe dela.

Quando finalmente ela chegou, algo incr√≠vel aconteceu: A dor passou, na verdade ficou de lado, dando espa√ßo a alegria. O amor de Deus inundou meu cora√ß√£o e eu gritava, explodia e corria. Come√ßamos a correr e a louvar “Ser√° sempre Deus e sempre me amar√°…” e assim foi, at√© cruzar a t√£o sonhada faixa, onde cai de joelhos em gratid√£o.¬†ūüôŹ

Era um dos maiores momentos da minha vida e sem d√ļvidas o maior como atleta.

As palavras da Monica Otero, Ultramaratonista experiente e que j√° cruzou diversas trilhas e caminhos ao redor do mundo come√ßavam assim: “- Voc√™ concluiu a BR135 na categoria solo. Uma das provas mais dif√≠ceis do mundo e voc√™ vai receber uma placa em homenagem a isso…” As palavras soavam longe, como um sonho. Mas o sonho era real…

Ainda estou andando pelas ruas com um sorriso bobo. Sorriso que insiste em ficar por aqui.

Você já teve a sensação de tocar o impossível? Eu já.

 

 

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Sergio Garcia

Sergio Garcia é Ultramaratonista, empresário e idealizador da Equilíbrio Esportes. Apaixonado por aventuras, já competiu nas principais provas no Brasil e fora dele, além de percorrer trilhas fantásticas. Nas horas vagas ele tenta "colocar suas aventuras no teclado", buscando convidar seus leitores a passear com ele e se sentirem capazes e motivados a sairem do sofá e viverem também estas aventuras.

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