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Anti-inflamatórios na corrida e seus riscos

AINEs são anti-inflamatórios não esteroides como ibuprofeno e naproxeno sódico. Muitos corredores utilizam AINEs, especialmente ibuprofeno, antes, durante e após provas com a intenção de prevenir inflamação, lesões e administrar a dor, tanto a dor decorrente dos treinos ou de lesões antigas como a dor que já é antecipada pelo esforço da prova em si. Acredita-se que o uso de ibuprofeno antes de uma prova pode prevenir lesões e a inflamação e até melhorar a performance, mas estudos demonstram que nenhum desses efeitos é verdadeiro e, ao contrário, o uso indiscriminado de AINEs possui muitos riscos e podendo levar a lesões permanentes de órgãos e até à morte.

AINEs já possuem efeitos colaterais conhecidos como distúrbios gastrointestinais, lesão renal e aumento do risco de problemas cardiovasculares, efeitos exacerbados pelo uso contínuo e desgaste físico prolongado. Segundo um estudo da Universidade de Stanford, o uso de ibuprofeno durante a corrida em distâncias muito longas duplica o risco de lesão renal aguda e possui o risco de evoluir para falência renal, sendo que corredores desidratados estão sob maior risco. Segundo o médico Grant Lipman, autor do estudo, a cada cinco corredores que tomaram ibuprofeno havia um caso adicional de lesão renal aguda. Ibuprofeno também possui o efeito de reter líquidos aumentando o risco de hiponatremia por esforço físico, que está associada ao excesso de hidratação e retenção de líquidos no organismo.

O uso profilático de AINEs não é recomendado e, quando utilizados por períodos prolongados, aumentam o risco dos efeitos adversos de problemas gastrointestinais e cardiovasculares, interferem no processo de recuperação e fortalecimento dos tecidos, aumentando a predisposição de atletas a lesões musculoesqueléticas e fraturas por estresse, retardam a recuperação dos tecidos e lesões musculares, ligamentares e de tendão, e causam maior inflamação. Estudos demonstram que AINEs contribuem para a redução da dor e inflamação pós lesão em doses mínimas e por períodos reduzidos (menos do que 7 dias), mas o uso prolongado de AINEs e de forma profilática (sem lesão) traz muitos riscos que devem ser considerados.

Muitas maratonas atualmente recomendam evitar o uso de AINEs 24 a 48h antes da prova e pelo menos 24h após a prova pois muitos participantes, atletas e amadores, fazem o uso dos medicamentos sem acompanhamento médico e sem conhecimento dos riscos envolvidos com o seu uso. Ultramaratonistas devem possuir cuidado adicional pois os efeitos colaterais podem ser exacerbados em eventos de esforço com longa duração e especialmente se associados com outras condições como a rabdomiólise e desidratação. Informe-se, compreenda os riscos e consulte um profissional de medicina esportiva antes de continuar utilizando AINEs e outros medicamentos deliberadamente. O seu organismo irá agradecer no longo prazo.

Bons treinos!

Referências:
Pain reliever linked to kidney injury in endurance runners, Stanford Medicine
Prophylactic misuse and recommended use of non-steroidal anti-inflammatory drugs by
athletes, Indiana University
Ibuprofen versus placebo effect on acute kidney injury in ultramarathons: a randomised
controlled trial, National Library of Medicine
Oral non-steroidal anti-inflammatory drug use in recreational runners participating in Parkrun UK:
Prevalence of use and awareness of risk, International Journal of Pharmacy Practice – Oxford
Academic
O efeito de anti-inflamatórios na dor de corredores participantes de 42km de trail running,
CIAFIS

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Samanta Chu

Representante no Brasil e instrutora da Wilderness Medical Associates International (WMAI Brasil), ministra cursos no Brasil e no exterior desde 2011. Possui formação de Técnico de Emergências Médicas para Áreas Remotas (WEMT – EUA), é membro benfeitor do Grupo de Resgate em Montanha (Joinville, SC) e guia profissional conduzindo grupos em atividades outdoor diversas desde 2007.

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