Menu Filtro

Qual o significado das montanhas de 6 mil metros nos Andes para o Montanhismo

Por Pedro Hauck.

Recentemente, uma série de expedições levadas a cabo por mim e por meu amigo de escalada Maximo Kausch colocou luz sobre a cordilheira dos Andes e suas montanhas, esquecidas do montanhismo mundial. Mas afinal, qual é a importâncias das montanhas andinas, principalmente as acima dos 6 mil metros para o montanhismo mundial?

Em uma época não muito distante, escalar as montanhas mais altas do mundo era o desafio do montanhismo. Em 1950, a expedição francesa que escalou o Annapurna, a primeira montanha acima dos 8 mil metros a ser escalada, demonstrou como as grandes altitudes chamavam atenção das pessoas e dos montanhistas.

Os motivos eram simples. Já havíamos vivido duas grandes guerras, já havia sido inventada a bomba atômica, o avião supersônico, porém as montanhas mais altas do mundo continuavam virgens e desconhecidas.

A disputa entre montanhistas e suas nações resultou numa corrida para estas montanhas. O Everest foi conquistado pelos ingleses em 1953, e o último 8000m foi vencido em 1964 somente, por motivos políticos. A China impedia que montanhistas estrangeiros entrassem no país, deixando para eles a missão de subir o Shishapangma de 8014m.

Na rota do Cerro Marmolejo – Chile | Foto: Gabriel Tarso

Com estas conquistas, as montanhas mais altas deixaram de ser o desafio esportivo do montanhismo. Ao invés delas, tornaram-se as rotas mais inclinadas e difíceis em montanhas remotas. Até que em 1986, após uma disputa contra o polonês Jerzy Kukuczka, o italiano Reinhold Messner enfim se tornou o primeiro homem a escalar todas as montanhas de 8 mil metros do mundo. Um projeto que hoje é chamado de “Grand Slam do montanhismo” e que foi repetido somente 33 vezes na história.

Reinhold Messner

Após a conquista de Messner, escalar um grupo de montanhas com algum atributo semelhante começou a se tornar um desafio. Ou seja, no desafio do montanhismo não bastava somente escalar uma montanha, mas sim um conjunto delas. Haviam definido o Grand Slam como a ascensão de todos os 8 mil do Himalaia. Mas não demorou para que alguns montanhistas tentassem mais tarde subir todos os 4 mil dos Alpes (84) e todos os 5 mil da América do Norte (10). Além disso, o Grand Slam que não concentra nenhuma região, e sim todo o mundo. É o caso dos 7 cumes, que se consiste na ascensão da montanha mais alta de cada continente. Por ser o mais fácil de todos, tornou-se o projeto mais popular e comercial.

Apesar de parecer óbvio que um dia o montanhismo iria se voltar aos 6 mil dos Andes (6 mil metros é a altitude mais alta que uma montanha nos Andes alcança), isso não aconteceu. A dificuldade começa pelo simples fato que a cordilheira dos Andes é maior que o Himalaia, Alpes e Rochosas. Vai do Caribe até a Terra do Fogo, tendo mais de 8 mil km de extensão.

Em termos históricos, o montanhismo por aqui não é recente, muito pelo contrário. Diversas pesquisas arqueológicas mostram que os Incas, antes dos Europeus, escalavam montanhas de maneira sistemática, numa cultura que foi extinta com o final do império em 1532. O montanhismo moderno se fortaleceu por aqui somente no século XIX. Humboldt tentou escalar o Chimborazo, de 6267 metros em 1802, achando ser ela a montanha mais alta do mundo. O Aconcágua, foi escalado pela primeira vez em 1897 e outras montanhas famosas, como o Tupungato, Illimani e Huayna Potosi na mesma década.

Porém muitas montanhas andinas com mais de 6 mil metros, principalmente aquelas situadas na Puna do Atacama, foram escaladas por primeira vez muito recentemente. Enquanto que as montanhas dos Alpes são escaladas desde o século XVIII, a ascensão dos 8 mil do Himalaia remonta dos anos 1950, ainda havia nos Andes montanhas de 6 mil metros virgens no limiar dos anos 2000.

Eu, Maximo e Jovani nos Vallecitos Colorados | Foto: Gabriel Tarso

Outra dificuldade para a empreitada é oriunda do mapeamento rudimentar e pouco confiável. Até 2011, não existia sequer uma lista das montanhas de 6 mil andinas. Além disso, disputas entre países andinos resultaram na divulgação de altitudes erradas das montanhas, apenas para que um país X pudesse ter o “privilégio” de ter mais montanhas que o vizinho, ou roubar uma parte de seu território, pois em muitos casos as fronteiras são os divisores de águas mais altos, ou seja o cume das montanhas.

Por conta disso, montanhas de 5 mil metros são colocadas como sendo 6 mil. Isso aconteceu, por exemplo, com o Cerro Plata em Mendoza na Argentina, onde nos mapas é figurada como 6300 metros, mas que na verdade tem 5950. O Vulcão Tupungato, de 6500, também aparece como um 6800, assim como o Antofalla de 6440 e o Nevado del Cachi, que infelizmente é oficialmente chamado de cumbre Libertador San Martin e outros que recebem nomes e altitudes políticas na Argentina, que mesmo sendo chamado de país platino, é na verdade o país com mais montanhas de 6 mil metros dos Andes.

Após conceituar o que é uma montanha, eliminando da lista os sub cumes de montanhas complexas utilizando-se dados gratuitos da NASA, em 2011 Maximo Kausch definiu a primeira lista utilizando um método científico. Esta lista foi atualizada um pouco mais tarde através do esforço de Suzie Imber, cientista inglesa da Universidade de Leicester.  Suzie teve acesso a um super computadores da NASA para rodar um programa complexo que interpreta dados topográficos. Após algum tempo de pesquisa, chegou ao número de montanhas andinas com mais de 6 mil metros com 104. A quantidade pode se elevar ou reduzir com a melhoria na precisão dos dados.

Com essa lista, Maximo não apenas lançou um desafio ao montanhismo, como se destacou para completá-lo primeiro. Passados 6 anos desde o começo do projeto, atualmente é quem mais escalou 6 mil andinos, com 72 cumes reconhecidos pelos Guiness. Em segundo vem o suíço Michael Siegenthaler, em terceiro, o inglês John Biggar, autor de guias sobre montanhas andinas. Logo após apareço eu, um brasileiro que nunca morou num país com neve e teve pouco holofote até agora.

Descansando no Majadita | Foto: Gabriel Tarso

Mas por que será que o mundo ainda não despertou para os 6 mil metros andinos?

Essa pergunta é simples de responder. Isso ocorre por que ele ainda é muito recente, não ganhou muito destaque da mídia e poucos conhecem o desafio. Faltaria algum tempo, divulgação e que alguém pudesse completa-lo pela primeira vez.

Outra questão é que, diferente de outros Grand Slams do montanhismo, escalar todos os 6 mil andinos requer total independência.

Diferente das montanhas dos Alpes e Himalaia, a maioria das montanhas andinas não tem nenhuma estrutura. Não há estradas de acesso fácil, refúgios, ou informações na internet, nem uma página falando que elas existam na Wikipedia. Muitas destas montanhas são desconhecidas e algumas receberam pouquíssimas ascensões. Com estas características é fácil imaginar que é óbvio que não há nenhum serviço para estas montanhas. Mesmo que você queira e pague bem, ninguém irá te levar para escalá-las.

Levando isso em consideração, deve-se ressaltar que são 104 cumes, muito mais que qualquer outro Grand Slam. Neste número há montanhas extremamente técnicas e perigosas, outras fáceis, mas com acesso difícil, e até montanhas circuladas por minas terrestres. Sim, há muita dificuldade para que a escalada de todos os 6 mil andinos seja completada por uma única pessoa.

Enfrentando a neve funda do Toro | Foto: Gabriel Tarso

Pessoalmente me sinto muito atraído ao desafio. Não prometo que consiga escalar todas, pois só em pensar em algumas montanhas peruanas me dá calafrios. Porém, como meu projeto de vida é envelhecer escalando, tenho certeza que terei muito a fazer nos próximos anos.

Não há dúvida que, em breve, fazer um volume de 6 mil nos Andes será tão valorizado pela mídia quanto um 8 mil. Terei o orgulho de ser um pioneiro neste desafio.

Para nós, brasileiros, um 6 mil andino tem um valor mais que especial. Todos sabem que só uma passagem aérea daqui até o himalaia custa um carro popular. Os Andes estão muito próximos e podemos ir dirigindo até lá sem muita dificuldade. Isso nos colocou à frente na corrida pelos 6 mil, até mesmo de grandes potências do montanhismo mundial.

Esses motivos explicam a importância da escalada dos 6 mil andinos e mostram como nosso projeto pioneiro, enfim, colocou o Brasil no mapa do montanhismo mundial.

O grupo completo no cume do Marmolejo (Suzie, Jovani, Eu e Maximo) | Foto: Gabriel Tarso

 

 

Publicação da Spot, parceira do CamelBak Training Club

 

 

 

 

 

 

 

Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn

There are no responses so far.

Spot

Spot

A SPOT Brasil traz soluções de comunicação via satélite para diferentes esportes e atividades outdoor! Através de equipamentos modernos e resistentes, permite o rastreamento em tempo real e envio de mensagens de SMS e Email, garantindo a comunicação em áreas remotas. Além disso, promove segurança aos atletas e entusiastas, e já realizou mais de 5.100 resgates no mundo. Hoje, a marca reúne um time de mais de 30 atletas brasileiros que compartilham suas histórias e desafios no SPOT Blog.

Parceiros

Apoio